Sobretons sobre o sexo e a pornografia

Imagem Egon Schiele, Dead Girl

O blog já teceu anteriormente algumas discussões sobre as problemáticas que surgem durante a infância de um garotinho gay na publicação “Um pouco de bíblia e homossexualidade”. As questões com a sexualidade impostas pelo corpo social se fazem presente sobrepondo camadas iniciais de aprendizagem que podem antecipar experiências íntimas neste ser, geralmente mais tardias pro senso comum. O machismo hiperssexualiza o outro para o seu bel prazer. Ascende uma pirâmide hierárquica que eleva o homem ao topo e o seu entorno ao locus puramente servil. Meu primeiro contato com essa realidade se deu quando sequer tinha noção pra discernir o que era errado ou o que era certo. Eu sabia sobre as coisas que os meus pais me diziam e eles nunca falaram nada do tipo. Nunca ouvi de ninguém aliás onde começa e onde termina um toque de carinho. O adulto configura para a criança um posto quase inquestionável de saberes visto que sempre recebe ordens de um sobre o que fazer ou não. E infelizmente, como muitos, precisei descobrir clandestinamente. Não sei dizer pragmaticamente porque isso acontece. O fato é que existe uma série de coisas não ditas sobre a sexualidade que fertilizam esse horrível terreno clandestino.

Por que um país que tanto mata pessoas destes grupos busca justamente como entretenimento sexual componentes dessas comunidades?

A pornografia atende outras demandas sexuais também negligenciadas no debate pela falsa moralidade e pela norma binária de gênero tão discutidas atualmente por movimentos insurgentes. O brasileiro consome muita pornografia. Um estudo divulgado pelo canal Sexy Hot em 2018 atestou que cerca de 22 milhões de pessoas assumiram consumir pornografia. Número evidentemente maior se considerarmos o quantitativo oculto. Do total de declarados, a maioria é composta por homens jovens com menos de 35 anos, de classe média e atuantes em relacionamentos sérios. Um outro dado intrigante foi revelado pela plataforma on-line de conteúdo adulto Pornhub afirmando que a maioria dos usuários consome especialmente o acervo de produções trans, lésbicas e bissexuais. Justifico o uso do termo ‘intrigante’ devido os índices agudos de violência doméstica e de casos homotransfóbicos da atualidade espalhados pelos quatro cantos do país. Já abordamos mais detalhadamente no post que fala sobre masculinidade do perigoso senso de poder arraigado em sua simbologia. O Brasil agride uma mulher a cada quatro minutos e acaba matando a cada oito horas. O Grupo Gay da Bahia (GGB) aponta que o Brasil registra uma morte de pessoas LGBT’s a cada vinte e três horas. Por que um país que tanto mata pessoas destes grupos busca justamente como entretenimento sexual componentes dessas comunidades?

Deste modo o preconceito quando enclausurado em um quarto fechado parece descortinar desejos abreviados pelo receio do julgamento alheio.

A vala heteronormativa disseminada essencialmente pelo cristianismo em nossa região cristalizou a binariedade de gênero e o caráter de procriação do sexo. A Igreja sempre contestou o sexo por prazer e com isso a moralidade inundou os ares e lares da família brasileira. O machismo, por sua vez, sempre deu conta de canalizar os ditos “instintos” para fora dos preceitos tradicionais durante a história estuprando negras escravizadas ou se utilizando de profissionais do sexo e até mesmo violando entes da própria família. Se isso não tem a ver, em grande medida, com a prerrogativa de prover que se alinha ao senso de poder sempre atribuído a masculinidade, eu não sei mais o que pensar. A pornografia que representa cenicamente uma tendência social configuraria então um subterfúgio recente frente à realidade normativa e machista. A modernidade trouxe a internet, a agilidade de acesso e de experimentação. Deste modo o preconceito quando enclausurado em um quarto fechado parece descortinar desejos abreviados pelo receio do julgamento alheio.

Ao nos atermos a narrativa científica podemos declarar que a pornografia atinge um campo caracterizado de “centro de recompensa”. Significa que a prática regula na corrente sanguínea uma série de substâncias denominadas de “hormônios do prazer” responsáveis pela sensação de euforia e bem-estar proporcionadas, por exemplo, pelo orgasmo. E isso cria conexões nervosas que relacionam a sensação a atividade. Temos aqui um caminho pavimentado pro vício. Um dado ainda pior aponta que a partir da exposição continuada os consumidores de pornografia tipicamente habituam-se com o conteúdo que já viram e tendem a passar constantemente à formas mais extremas e desviantes de pornografia para ficarem estimulados. Surge então um fluxo progressivo que se aproxima dos processos de dependência química mais conhecidos comumente ao apresentar quadros densos de resistência psicológica acompanhados de sinais abstinentes que, inclusive, inúmeras correntes afirmam decorrer em reflexos negativos na virilidade e/ou no próprio desejo pelo sexo físico. Aí a dose pode aumentar compulsoriamente a níveis perigosos. Por reproduzir um imaginário tido como “ideal” temos em cena performances enlouquecidas que em nada se relacionam com a naturalidade. Seja qual for a configuração a ficção sexual representa, via de regra, a imagem do dominador ‘miserê’ e a do dominado subjugado. E sim, falo com conhecimento de causa. O conteúdo pornográfico de modo geral repercute o imaginário hétero normativo tradicional e a violência é quase sempre um ingrediente associado. Assim o consumidor de pornografia passa a considerar coisas como o sexo com animais ou até mesmo o sexo violento duas vezes mais comum do que aqueles não expostos a pornografia pensavam.

Durante um bom tempo eu entendi a pornografia como um dispositivo didático para o sexo. Afinal, quando não se é abarcado pela heteronormatividade as relações afetivas ficam ainda mais restritas, principalmente no início da adolescência. É quase que inevitável gerenciar os hormônios nessa fase e não ceder a curiosidade na era da internet de conhecer a fundo o que tanto os ditos ‘adultos’ se esforçam pra esconder. A pornografia acaba funcionando como uma alternativa prática de autoconhecimento íntimo. As discursivas contemporâneas propiciaram, além do mais, o surgimento de iniciativas audiovisuais disruptivas ancoradas em produções dirigidas por não binários com bem menos apego ao que historicamente vem sendo feito.

A educação sexual permite a quem for exposto a ela saber diferenciar o carinho do abuso, o seguro do perigoso; o saudável do nocivo.

O presente texto até considera que existe um terreno onde os consumidores da narrativa em voga não se aproximam necessariamente do muro dos extremos. O problema maior é quando esta mesma pornografia reflete um fluxo disfuncional de seres e saberes do sexo e do prazer. Diante disso fica gritante a necessidade de conversarmos sobre o sexo e suas ramificações para evitarmos perigosas terceirizações. A educação sexual permite a quem for exposto a ela saber diferenciar o carinho do abuso, o seguro do perigoso; o saudável do nocivo. E ser consciente dos limites que entornam a atmosfera audiovisual pornográfica permite também saber discernir a performance do real a ponto de não estabelecê-la como referencial. Reconhecendo os potenciais riscos atrelados ao consumo da mesma.

Por fim, precisamos falar sobre sexo devido a urgência de normalizarmos discussões que orientem e protejam quem historicamente sofre com as agressões do machismo. E a violência sexual infantil é mais uma ponta solta para desencaparmos dessa infeliz fiação, visto que apesar da subnotificação dos casos devido sua complexidade em conjunto com a ineficácia do Estado, é possível afirmar que a grande maioria das vítimas corresponde ao sexo feminino. Não suficiente, se aplicado o fator raça teremos a comunidade negra na dianteira das estatísticas mais uma vez. E se utilizarmos ainda uma outra lupa sociopolítica posso dizer a partir de leituras empíricas que a criança homossexual masculina pode ocupar uma posição mais vulnerável na escala de violência direta. Pois o menino gay é visto num lugar ilegítimo de feminilidade e “fragilidade” pelo machismo que confere um entendimento ainda mais potente de violação para o seu agressor. É terrivelmente apavorante. Por isso precisamos falar sobre sexo e sexualidade até mesmo com nossas crianças, aplicando evidentemente o devido recorte. Precisamos falar inclusive o óbvio nos diversos espaços políticos que ocupemos. Minar de todas as formas essa cultura criminosa de uma ponta a outra. E isso inclui debatermos a maneira como o Estado administra atualmente o agressor e a vítima declarada. Sobre especificamente essa última provocação, deixo aqui um vídeo importante para a maturação do tema.

O texto conclui sua viagem estimando ter feito adequadamente a relação que o consumo acentuado de pornografia pode representar no imaginário comum por encenar uma tradicionalidade opressora chafurdada em omissões discursivas e vitais sobre sexo e sexualidade. É meio que uma mania desgraçada herdada do colonialismo essa sanha em esconder os fenômenos que desagradam e/ou ‘envergonham’ a moral hegemônica. Como se esconder resolvesse ou desintegrasse o problema. Mas neste caso, apenas o marginaliza, pondo-o nas periferias e costurado de tal modo para que surja como fator natural dela, e não advinda do meio materialista histórico. Assim aprendemos e replicamos; não questionamos o porquê é assim… logo não conversamos; consequentemente cristalizamos não diálogos.

Evitamos vespeiros pelo receio de prováveis picadas. Mas o que seria um tema tabu se não um vespeiro onde a sua não manutenção é que verdadeiramente pode ocasionar perigos e vítimas? Quem inventou e a quem contempla essa ideia de temas tabu que se deve evitar devido ao “desconforto”? Quem esse tal desconforto atinge e por quê? Essas perguntas abrem um leque de novos caminhos. Precisamos falar sobre sexo, abuso, pornografia e sexualidade. Se informe e converse.

Como último dado vale frisar que a maioria dos agressores de violência doméstica e sexual são cotidianamente próximos de suas vítimas.

Disque 100.

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